Espírito Eugênia-Aspásia

21 de maio de 2003
 

Visão Espírita do Cristianismo (*1) (*4).

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

A primeira questão a se dizer sobre o assunto é que não existe propriamente uma visão espírita do cristianismo, porquanto Espiritismo é Cristianismo, em sua mais pura acepção, ou, parafraseando outros amigos de Cá, “é o cristianismo em sua pureza primitiva” (*2).

Se há alguma dúvida sobre isso, analisemos uma a uma, as vigas mestras do Espiritismo, e notaremos uma perfeita coadunância e convergência com os princípios deixados por Jesus, há dois mil anos.

1. As práticas fenomênicas.

Comecemos pelo mais polêmico. Para muitas escolas tradicionais de cristianismo, no campo da ortodoxia evangélica, por exemplo, as interações com os espíritos são indevidas. Só que pecam por grave ignorância, os nossos irmãos protestantes, já que desconhecem certamente que a palavra “daimon”, que assinala, nos Evangelhos, as entidades com quem Jesus intercambiava, conversava, tratava e curava, significava, em grego antigo: espírito. Quando, então, Jesus materializa Elias e Moisés, no Monte Tabor, então, a revelação de que tais eventos fenomenológicos constituem parte de sua doutrina está mais do que óbvio. Pede Ele que os Apóstolos e demais discípulos repitam seus gestos, curem os doentes com a imposição de mãos (o passe a mediunidade de cura), expulsem os “daimons”(sessões de desobsessão), e, por fim, que se alguém não fizesse tais coisas era por sua pouca fé, de modo que não poderia figurar como seu discípulo.
Pelo visto, então, se considerarmos a literalidade dessas palavras do Mestre, a parte fenomenológica, mediúnica do Espiritismo não o torna menos cristão, mas, justamente o contrário: caracteriza-o como puro cristianismo, ao passo que aqueles que abominariam tais manifestações psíquicas estariam se afastando do pensamento central do Cristo.

2. O Pensamento Racional e Prático.

Jesus era de um brilhantismo excepcional para assuntos complexos: reduzia-os a questões comezinhas do cotidiano, tornando-as palatáveis a mentes menos treinadas a raciocínios elaborados, e, assim, digeríveis por elas. Usou metáforas do dia-a-dia do povo a que se dirigia, e, sempre que alguém fazia uma pergunta ou apresentava um raciocínio destituído de sentido, repreendia, severamente, como na famosa passagem sobre a verdadeira impureza: “Néscios! Por acaso estais tardos de inteligência? Não sabeis que o que o homem come depois desce a um lugar escuso, mas o que sai da sua boca provém do coração?”. Ou naquel’outra ocasião, em que fala sobre um homem aparentemente prudente, que enche seus celeiros e dorme feliz, dizendo: “Regala-te, minha alma, porque tens muito”, para o que o Mestre disse: “Néscio, de que adianta conquistar o mundo, se ainda hoje te demandarão a alma?”

3. A proposta evolutiva reencarnacionista.

Orígenes, grande doutor da Igreja, do século III, entre inúmeros grandes teólogos dos tempos primeiros do cristianismo aceitavam com naturalidade a tese reencarnacionista, porque os próprios textos evangélicos, à época, ostentavam tais indícios claramente. Em 353, todavia, o II Concílio de Nicéia aboliu quase tudo que havia nos escritos sinópticos sobre o tema. Alguns poucos vestígios – embora claros – nos chegaram, entre eles a famigerada passagem em que Jesus afirma categoricamente que João Batista era Elias, e que os seus executores não o tinham reconhecido, nessa condição de reencarnado. De qualquer forma, a proposta de transformação, de “metanous” ou metanóia (transmentalização para melhor), a palavra grega que foi traduzida para os idiomas neo-latinos como a paupérrima e totalmente distinta: “conversão”, indica que Jesus acreditava e investia pesadamente, no potencial de mudança, ou seja: de evolução, do ser humano. A mensagem do Evangelho não faria o menor sentido, se não se considerasse o poder de modificação para melhor que é inato ao ser humano. Negá-lo seria negar o próprio pensamento de Jesus, ou alcunhá-lo de sádico ou cínico, por nos sugerir o impossível.

Mas, de qualquer sorte, além da perfeita coincidência entre Espiritismo e Cristianismo, em seus fundamentos, pela existência de tantas correntes de exegese do sistema crístico de pensamento, temos de admitir e revelar, também, o outro lado, essencial, do Espiritismo, que é de renovação do cristianismo, já que ele se tornou algo bem diverso de seu príncípio, com os séculos de vícios humanos acumulados. Assim, o Espiritismo faz o Cristianismo retornar aos seus conceitos originais, no que novamente concordamos com a definição lapidar do amigo espiritual acima citado (*3). Vejamos alguns tópicos:

1. Livre-Pensamento:

O Cristianismo viciou-se em dogmatismos, literalismos e toda sorte de escolástica balofa, obscura, supersticiosa e confusa, que dificulta o livre curso da razão, e, portanto, impede que mentes mais lúcidas e cultas aceitem-lhe certas postulações. O Espiritismo, ao propugnar pela observação científica dos fatos, pela valorização das novas descobertas do conhecimento humano, e sempre estimulando o crivo crítico, concitando sempre à busca de causas, explicações, finalidades, motivos para todos os eventos, conquista a inteligência das pessoas sensatas e da massa de pessoas esclarecidas que compõe substancial fatia da população mundial, da mesma maneira como o fazia Jesus, à maneira do possível, para seus ouvintes pescadores, pastores e donas de casa quase todos analfabetos.

2. Individualismo.

Por interesses econômicos e políticos, as organizações religiosas assumiram um poder completamente fora de suas funções administrativas originais. Obviamente que o egoísmo é uma chaga social a ser extirpada, e que o individualismo, em sua conotação pejorativa, representa o que há de pior do egoísmo. Mas a idéia de individualismo como consciência do si, dos próprios valores, julgamentos, sentimentos, da própria consciência, intuição, vocação (que não por acaso significa, em sua origem etimológica, “voz” – “vox”, verbete latino –, a Voz de Deus dentro da criatura), esse individualismo que propõe responsabilidade da criatura ante o seu Criador, o próximo e o mundo é o cerne do Espiritismo e do Cristianismo verdadeiro. Assim, para o Espiritismo, hierarquias religiosas não têm autoridade espiritual indiscutível, e somente a voz da consciência de cada um pode estabelecer roteiros seguros de paz e felicidade para si. Assim, estimula o desdobrar da mediunidade por toda parte, a fim de que a Voz dos que partiram e que estão à frente de nós, no carreiro evolutivo, possa nos orientar, não por meio de uma instituição, mas de um multidão sem fim de medianeiros, os melhores caminhos a seguir para nossa realização completa, como seres espirituais encapsulados em corpos físicos.

2. Felicidade.

Embora alguns não concordem que o Espiritismo e o Cristianismo sejam, ambos, doutrinas proponentes da felicidade, isso bem denota o grau de desvirtuamento atual das idéias originais de ambos. A palavra felicidade vem da expressão latina: “fe licitta”, ou seja: ao “pé da letra”, felicidade significa: fé verdadeira. Quem não está feliz, portanto, não está no caminho de Deus. E quem está no caminho de Deus, naturalmente mostra-se feliz. É esperável: se nos aproximamos de Deus, tendemos a nos sentir melhor, tanto quanto o afastamento d’Ele representa o “inferno” para a consciência de vocação divina, que se sente vazia e destituída de propósito. Eis por que, muito bem aplicado, a palavra entusiasmo, em um estudo etimológico ligeiro, revela-nos, em sua origem grega, significar: “estar cheio de Deus”. Se é dito em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” que “a felicidade não é deste mundo”, deve-se compreender muito naturalmente que o autor do texto aludia a esse mundo de idéias materialistas, egóicas, hedonistas, imediatistas, que fazem a infelicidade da alma… não por acaso deixando-a: des-animada (“anima”, do latim: alma). Em grego antigo, a palavra indicativa para felicidade é também sugestiva no mesmo sentido: “eudaimonia”, que significa“daimon satisfeito”, ou: um espírito ou alma satisfeita. A própria idéia de que a Terra pertence à categoria de “mundo de provas e de expiações” e de que lentamente transita para a de “mundo regenerador”, implica em um processo de adesão progressiva, entre seus habitantes, à faixa de consciência, ao padrão de pensamento e comportamento em que o bem predomina e não mais o mal, em que, portanto, a felicidade reine e não mais o sofrimento. Não será, de pronto, é claro, uma felicidade perfeita, porque temos longa trajetória até a perfeição para percorrer, mas se não pugnarmos pela felicidade, a verdadeira felicidade, em seus fundamentos espirituais de paz de consciência e cumprimento do dever em todos os níveis e dimensões do ser, fracassaremos redondamente em nossos intentos de melhorar a humanidade, já que o ser humano só se motiva pela satisfação de suas necessidades e não pela tese de sacrifício. Aliás, o próprio Jesus disse, parafraseando o profeta Oséias: “Misericórdia quero e não sacrifício”. No transcurso de todo seu Evangelho conclama a que haja júbilo, regozijo e alegria, mudando as palavras, mas dizendo a mesma coisa sempre. A própria palavra Evangelho, de origem grega, significa “boa notícia”, algo que se deveria clamar aos quatro ventos, para alegria geral.

Com esses rápidos apontamentos, encerramos a súmula de nosso pensamento a respeito, e sugerimos que se dê largas, em toda parte, a essa basilar associação entre Cristianismo e Espiritismo, já que, se um e outro são essencialmente a mesma coisa, o primeiro, em séculos futuros, sobreviverá e crescerá, graças ao respaldo oferecido pelo segundo, em nome do próprio Jesus que, de Altiplanos Espirituais inalcançáveis ao senso comum, determinou a vinda do Espiritismo à Terra, para que Sua Palavra vivesse para sempre, como Ele mesmo profetizou que um dia enviaria um Paráclito, o Espírito de Verdade, que lembraria todas as coisas que disse, e as explicaria.

Abençoado seja o Parecleto Espírita, que salva almas do suicídio, da loucura, de toda sorte de desvios, descaminhos, infelicidades, sobremaneira as mais necessitadas: aquelas de coração mais duro e mente mais céptica, que não prescindem das evidências, dos raciocínios, da lógica irretorquível apresentada pelo Espiritismo, a todos que se lhe dêem ao trabalho de compulsarem as obras axiais e meditarem em torno de seu conteúdo. Será por mercê desse esforço benemérito que conjuga o empenho de encarnados e desencarnados, que bilhões serão salvos, que a Humanidade terrestre será salva da auto-extinção, que o bem se fará sobre o orbe, em medidas hoje inimagináveis ao vulgo, de modo definitivo e absoluto, implantando, então, para sempre, o “Reino dos Céus” prometido por Jesus desde sua vinda ao plano físico.

(Texto recebido em 20 de maio de 2003.)

Notas do Médium:

(*1) Pedimos a Eugênia que discorresse sobre este tema.

(*2) Pensamento de Emmanuel, conforme Chico Xavier.

(*3) Mais uma vez Eugênia alude a Emmanuel.

(*4) Peço desculpas por estar ausente, em viagem, participando da “33a Semana Espírita de Itabuna”, e não ter podido corrigir a falha de atualização da mensagem desta quarta-feira, e por nenhum de meus colaboradores terem podido também fazer nada, por precisarem do envio de mensagem de minha parte, o que estava impossibilitado de fazer, desconectado de internet. Esta é a segunda vez que a mesma mensagem é programada a figurar no site e simplesmente “não obedece” ao comando de para lá ir. Estou, assim, apondo outra no lugar, já às 20 h.




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