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Uma Doce Alma Gêmea.por Benjamin Teixeira. Logo após o crepúsculo de 24 de fevereiro de 1978, uma gigantesca bola laranja-avermelhada surgiu no horizonte aracajuano: era o início de uma noite de lua cheia. Minha tia materna Selma, hoje já há quase vinte anos desencarnada, dirigia seu fusquinha verde, e eu ia sentado no banco do passageiro, ao seu lado. Tinha completado 7 anos, quatro meses antes. Enxugava, furtivamente, lágrimas que não se continham em ficar nos olhos. Desolação. Mamãe acabara de ter o seu último nenê: avisara isso claramente. E se “Mauricinho” ou “Faustinho” não nascesse, teria que me conformar em ser o único menino em uma família de meninas: três meninas – um terror para uma garotinho. E… tragédia das tragédias… meu companheirinho de folguedos infantis não viera… e sim uma tal de Olivia! Ahg! Mais uma menina!… Didinha Selma começou a falar carinhosamente. Sabia do meu estado. - Meu filho, não fique triste porque nasceu uma menininha. Se fosse um irmãozinho, vocês nunca iriam brincar juntos. Quando ele tivesse a sua idade, você já estaria com 14 anos: um rapazinho! Não ia mais querer brincar com ele. E, sendo ela uma menininha, poderá ser… E, sem eu saber porque me consolavam tanto aquelas palavras, além daquele argumento lógico indiscutível da disparidade de idades para a condição de companheiro de infância (gostava de lógica… o esquisito garoto), senti uma estranha sensação de conforto íntimo… uma estranha paz quando Didinha, com voz mais doce que o normal, nitidamente em transe, disse, profetizando exatamente quem viria a ser… quem é a dulcíssima Olívia, em minha vida de adulto: - (…) Sendo ela uma menininha, meu filho, poderá ser não só sua amiguinha quando for criança, mas gostar de você e cuidar de você, ‘doce e amável’, durante toda sua vida… e não apenas enquanto for criança… Olivia veio para casa. Um encanto. Mais crescido do que quando as outras duas, Marilia e Lavinia, nasceram (quando tinha, respectivamente, 3 anos e 4 anos e meio), acompanhei todo o processo de amadurecimento lento de seu corpinho frágil, diminuto. Os primeiros passinhos, as primeiras palavras embrulhadas… os choros terríveis… Ah… Olivia já sabia fazer barulho por aqueles dias… No aniversário de dois aninhos, em fevereiro de 80… aquele longínquo primeiro ano da década de 80… ela foi cercada por todos nós, para ser acordada pela família inteira, como era hábito gerado por mamãe, cada um trazendo um presente. Pé ante pé, entramos todos no quarto de meus pais, onde ela ainda dormia, no berço ao lado, e a despertamos. A barriguinha e o peitinho subiam e desciam, os olhinhos esbugalhados… e Olozinha mal conseguia respirar de alegria… Todos ficamos extasiados com a felicidade radiante dela… quando, para surpresa de todos, ela, espontaneamente, rasgou o ar com um: “- Obrigado!” Exatamente assim. Não respeitou a regra do Português da flexão para o feminino… Mas nunca ouvi um “obrigado” mais sonoro, profundo e verdadeiro que aquele… posso ouvi-lo ecoar até hoje em minha mente… e não consigo, mais uma vez, conter as lágrimas… mas não de tristeza, do garoto que fui há 25 asnos atrás… mas de gratidão e carinho infinitos… pelo presente do céu que foi e é Olivia na minha vida, bem como na de todos que dela privam contato… Ela estava nitidamente no paraíso, naquela manhã de fevereiro de 80… E ainda hoje parece sempre estar… exemplo de alegria, descontração, simpatia, doçura e carinho que é para todos… um protótipo de Eugênia, a mentora espiritual, como costumo dizer. No início de 82, perto de fazer 4 aninhos, Olivia sofreu de uma forte crise brônquica, como me foi dito à época, que, pelo que suponho hoje, deve ter sido asmática, para ser mais preciso quanto a sua gravidade. Sibilava horrivelmente e fazia enorme esforço para conseguir colocar o ar para dentro dos pulmões e expulsá-lo depois. Ia ao bercinho dela (ainda estava num berço a esse tempo), à noite, sem que ninguém visse. E ficava aflito com a respiração difícil, mesmo estando ela em sono profundo. Fiquei vários dias sem dormir direito, com longa e sofrida insônia, indo várias vezes à noite examinar como estava Olitinha, como a chamávamos por aqueles dias. - Mamãe, venha ver a respiração de Olivia… ela parece estar sufocando!… – procurei minha mãe, certa noite. - Vai passar, meu filho… vai passar – dizia mamãe, após examinar a caçulinha por alguns instantes. Saí de perto. Não conhecia o poder da prece, na época, e simplesmente me afastei para não contemplar a angústia dela… ou o que me parecia ser a angústia dela… porque… Oliva dormia… como se nada estivesse acontecendo… Aquilo me impressionou deveras: o fato de ela sobreviver a respiração tão difícil, e ainda dormir tranqüilamente… naquele estado de tremenda aflição física, como um anjinho… Aquilo era um espetáculo moral para mim, embora não soubesse colocar nestas palavras por então… E pensei comigo: “Se ela pode agüentar uma respiração sofrida dessa, eu também posso (tinha também crises de asma, bem mais leves) e posso agüentar qualquer coisa…” Porque se até aquela crise respiratória terrível de Olivia passaria… tudo mais na vida poderia passar… Não conseguia relaxar, para conciliar sono, com Olivia naquele estado, e fosse por nervosismo e indução psicológica ou por um forte sentido de empatia com Olivia, naquele início de 82, aos 11 anos, tive eu mesmo a maior crise asmática de que me posso recordar, nos exatos dias em que Olivia ficou mal, com a tal da “infecção nos brônquios”. Olivia estava com 5 anos, eu tinha 13. Estávamos no início de 1984. Voltava da escola a pé, como fazia por aqueles dias, quando fiz um transe. Vi-me no futuro, sendo entrevistado para a TV, ao lado de Olivia, ela pela metade da casa dos 30 anos, eu provavelmente no início da faixa dos 40. Juntos éramos entrevistados e ela era apresentada como a alma mais afinada do mundo a mim. Ria deliciosamente, expandindo-se em simpatia para todos… Numa fração de segundo voltei. Uma fração de segundo para ir… outra para voltar… e estava quase no mesmo lugar do percurso entre o colégio e minha casa. Recordo-me ainda exatamente o ponto. Rua de Lagarto, próximo ao cruzamento com Propriá, na calçada esquerda, sentido Sul-Norte. Cheguei em casa esbaforido. Tinha que contar a mamãe o que acabara de acontecer ou enlouqueceria, dada a intensidade da vivência. Por aquele tempo, muito embora contasse algumas coisas a Marilia, mamãe era minha confidente preferencial: era a única pessoa que me compreendia completamente. Ou pelo menos o “completamente” que precisava. - Mamãe – disse, avidamente – eu sei que parece absurdo, porque nós não a conhecemos direito, é apenas uma criança, mas vou lhe fazer uma revelação – disse com ares proféticos (deveria ser muito engraçado por aquele tempo) – Olivia vai ser uma grande amiga minha no futuro. Fiquei acanhado de dizer que havia visto a nós dois no futuro. Nem mamãe compreenderia uma revelação daquela ordem, pensava comigo. Então, preferi me restringir ao fato de que seríamos grandes amigos e que ela seria associada facilmente à minha pessoa num porvir “distante”. - É, meu filho? – reagiu mamãe de modo convincente para minha interpretação da época. Creio mesmo que tenha acreditado. Médium, mamãe já cria na possibilidade de tais antevisões. O fato é que senti que ela acreditou… e aquilo me confortou muito. Um ano antes, em 83 tivera outra estranha experiência psíquica de pré-cognição (ou premonição: antevisão do futuro). Certo dia, na propriedade rural que meu pai tinha, saí já em transe de casa… e, como um relâmpago, veio-me a certeza à mente: 1994 seria um ano muito importante para mim. Não gostei da idéia. 1994 era infinitamente distante para um garoto de 12 anos, em 83. Mas não tinha jeito: a informação era aquela mesma. Falei p’ra Marilia. Não dizia essas coisas complexas para Olivia, então muito criança ainda. Mas o fato é que, para minha surpresa, o 1994 fez-se um ano-marco em minha atual existência: foi nele que lancei o programa de televisão que sinto ser o propósito central de minha estada na Terra. E… no mesmo ano de 94… Olivia coreografou e produziu, com apenas 16 anos, todo um espetáculo de ballet, e ainda teve a honra de ter alguns daqueles números artísticos dançados, ao lado dela, em fabulosos “pas de deux”, por Paulo Rodrigues, ainda hoje Primeiro Bailarino do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Na gíria do mundo artístico: “Aracaju ficou em chamas”, naquele 9 de setembro. Olivia produziu e coreografou a versão em dança do programa que eu lançara meses antes, na época, denominado “Além da Morte”. Foi uma emoção geral. Recursos ultra-modernos para aqueles dias, como telão de vídeo e montagens para demonstração de fenômenos mediúnicos aconteceram para uma Aracaju estarrecida. Ninguém diria que uma menina de 16 anos houvera criado tudo aquilo… a ponto de Paulo Rodrigues não querer fazer retoques na criação coreográfica de Olivia… E me chamavam de prodígio… Olivia é uma mente complexa. Tem praticamente todas as habilidades, o que, segundo “O Livro dos Espíritos”, é um dos traços característicos dos “espíritos superiores”, as entidades que, encarnadas ou desencarnadas, favorecem o progresso das coletividades. Escreve, fala, dança, canta e se relaciona com as pessoas como se fosse uma especialista em cada uma dessas áreas avançadas de inteligência humana. Por fim, é dotada de um coração de ouro, uma inteligência emocional invulgar para sua idade, e ainda conta com uma maturidade e bom senso ímpares… Aconselho-me com ela em crises, assim como faço com Marilia: são, para mim, pólos impressionantemente únicos e belos de concepção de vida, que me nutrem o coração quando me sinto baqueado, pelas pressões soberbas de minhas responsabilidades com a multidão. E elas, entre si, idem, se querem bem e se admiram, como duas almas valorosas que se reconhecem e se apóiam reciprocamente, apesar das enormes diferenças. Recentemente, agosto do ano transato, Wellington, meu querido irmão não-biológico (mero acidente), esteve em São Paulo, por um mês, para fazer um curso de artes plásticas. Olivia morando lá, hospedou-se em sua casa. Wellington, rapaz ultra-inteligente como Olivia, mas dotado de um terrível mau-humor, um verdadeiro espécime moderno de demoniozinho workaholic e ansioso, ficou deslumbrado com o dia-a-dia de minha querida alma gêmea. Nunca tinha convivido de perto com ela. Sentiu-se, para sua mente excessivamente lógica, racional e céptica, esquisitamente transportado para o País das Maravilhas, de Alice: - Benjamin, era impressionante – disse-me ele na volta – Olivia falava com Deus o tempo inteiro, e tudo em volta parecia responder a ela. Os cartazes da rua, as pessoas com que nos encontrávamos, tudo, literalmente tudo… ‘Ó, obrigada, Deus! Obrigada, Deus!’ Ela então dizia com naturalidade a cada resposta d’Ele, com as mãozinhas unidas, com os olhos cheios de lágrimas, mas com uma enorme intimidade e naturalidade… e eu não podia chamá-la de louca… (Ah… eu sei que ele adoraria dizer isso, por sua forte tendência pessimista) porque eu estava vendo as mesmas provas da presença de Deus que ela agradecia. Sim… era verdade… mas aquilo não me impressionava… já sabia quem era Olivia… é assim que acontece o caminho das almas santas no mundo… Deus se prodigaliza em seus caminhos, porque elas já vivem em contínua conexão com Ele, atraindo-O e revelando-O a todo tempo, para todos que podem desfrutar da graça de seu convívio. Olivia nasceu linda porque merece. Nem toda alma nobre é bela no corpo (é comum acontecer o contrário inclusive), mas Olivia é linda, por uma natural reflexão de sua beleza interior… Já a chamei de Rita Haywort por diversas vezes, a deusa ruiva de Hollywood, que incendiava as telas de todo o mundo nos anos 40 do século XX, com pico máximo no famigeradíssimo clássico “Gilda”, de 1946, que a imortalizou em seu charme e glamour ímpares… Pobre Rita Haywort… Como fica pálida e sem graça junto de Olozinha… É comum vermos pessoas lindas arrogantes e frias. Já recebem atenção suficiente de todos, não precisam ser gentis. Olivia, entretanto, está sempre sorrisos, apesar de não precisar fazer nenhum esforço para agradar ou chamar a atenção sobre si. Sofre – e já sofreu isso um sem-número de vezes, sou testemunha – toda vez que sua bonomia natural é incompreendida… mas… como toda alma santa… segue sorrindo… Deus a abençoe, Olozinha, por ser você quem é… por ser você um protótipo plausível de Eugênia que todos devemos copiar… Obrigado, também, por ser humana, apesar de tudo. Por ter seus defeitozinhos bonitinhos. Isso é bom, não nos humilha muito com sua grandeza, com sua luminosidade, com sua graça e leveza evanescentes… Obrigado por seu exemplo de coragem, de, sendo tão “Cinderela”, sensível e amorosa, afastar-se da família, sair de casa e distanciar-se de suas raízes, desde cedo, para montar uma empresa bem sucedida em outra cidade, e, depois, partir para o coração econômico do país, a metrópole-selva, e vencer galhardamente, em tão pouco tempo, arrastando aplausos por onde passa e se tornando a estrela inevitável que é, onde chega, como já havia feito tomando aulas na Broadway, em 97, quando sequer falava inglês, mas era a modelo de todos os professores, pelos seus naturais carisma e competência. Obrigado por não perder sua inocência original, apesar de sua experiência que se avulta. Por continuar pura nos palcos, encantando as pessoas, no mundo da fantasia, mas realizando o milagre de trazer o paraízo que representa, para os palcos da realidade… da sua e da vida de outras pessoas… Você realmente tinha que bailar nos palcos… cheia de garbo, fascínio e carisma… com seu sorriso angelical… para nos encantar… nos enlevar… nos elevar a um mundo de sonho e fantasia… um mundo em que a felicidade é possível… em plena realidade… Alguns são estrelistas… e querem roubar a cena dos outros, atormentados de egoísmo, mesquinharia e ciúmes… Você é a cena, o cenário, todo o espetáculo e o teatro também… Não adianta que um mundo de inveja caia sobre você, tentando eclipsá-la… porque você emite uma luz que vem de dentro… a luz do seu amor… do seu coração… E contra a força do amor… a Força de Deus no mundo… nada há que possa!!!… Seu irmão e amigo de sempre… Benjamin. (Texto composto na madrugada de 23 de abril de 2003.) |
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