Espírito Eugênia-Aspásia

4 de setembro de 2002
 

Ser honesto: a grande novidade obrigatória da civilização

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

Houve um tempo em que as hipocrisias e grandes corrupções eram prática comum em todos os níveis de poder, pela ignorância generalizada das massas, que eram exploradas e manipuladas por elites inconscientes e viciosas, como um grande rebanho de animais inconscientes. Hoje, porém, que a informação e o discernimento se generalizam, surge uma nova era de consciência e, por conseguinte, de honestidade, coerência e atitudes transparentes.

Ainda haverá grandes golpes e lances homéricos de indecência, mas, cada vez, perderão espaço e vez, na civilização ultra-tecnologizada dos dias que correm. Agora, tudo é facilmente desvendado, apurado e eliminado, de modo que será cada vez mais difícil o mal se manter por muito tempo de pé em qualquer setor das atividades humanas.

* * * * *

Você pode se supor em vantagem, e libertar-se do conflito entre impulsos fisio-passionais e disciplina moral, e se entregar a experiências extra-conjugais. Mas, depois de passado o momento do deslize, feita a contabilidade dos ganhos, tem você um contato desagradável estabelecido e um peso na consciência por ter traído o cônjuge amado, sem contar a possibilidade de ser descoberto e perder o tesouro inaquilatável da família, por um momento fugidio de aventura, ela mesma de qualidade duvidosa.

Em vez disso, pode investir no relacionamento com seu ente amado, procurando amadurecer na resolução das pendências emocionais que os afligem, e assim ser feliz, como conquista de paz, sobre o terreno de conflitos inevitáveis, já que todo convívio humano implica em atrito, em maior ou menor medida, nesse ou naquele particular.

Você pode se imaginar coberto de favores, ao ocultar, de seus superiores no trabalho, negligências no expediente profissional. Só que, mais cedo ou mais tarde, sua tendência relapsa, seu pouco rendimento e mesmo sua falta de ética ficarão óbvias e você perderá o respeito e a confiança de seus chefes, quiçá até o emprego ou, pior: a empregabilidade, com a ficha manchada de sua reputação, para toda sua vida profissional.

Melhor investir esforço, sem esperar recompensas imediatas, provando maturidade e responsabilidade, cativando colegas e superiores, e, no mínimo, adquirindo competência no exercício aplicado do trabalho e o respeito de todos, pela honestidade e dedicação a toda prova.

Você, como estudante, às vezes apela para o recurso de um plágio criminoso de informações, em parceria com seus coleguinhas de curso, cópia ilícita essa do que deveria já compor seu quadro de conhecimentos. E, muito embora o uso generalizado de tal prática em certas culturas, como a brasileira, não enganará a si próprio, nem a ninguém, quando precisar demonstrar cultura e competência em analisar, entender e concluir corretamente. Sem conhecimento e sem boa capacidade de pensar que a amizade com os livros favorece, dificilmente alguém terá muitas chances de vencer na vida, em qualquer sentido considerado.

Em vez disso, você pode se sujeitar a receber uma nota menor no exame escolar, mas se devotando com mais afinco a seus estudos, para ser aprovado com notas mais altas no vestibular maior do sucesso na vida, para o qual ninguém lhe dará “cola”, nem mesmo Deus, que quer seu progresso por méritos seus e não por transferência de valores inerentemente intransferíveis.

Não procure o benefício pessoal, na base da esperteza e da malandragem. Isso é comportamento adolescente, senão infantil, como o do garoto que esconde os dentinhos da mãe, ao sorrir, para não evidenciar o encardido das arcadas dentárias, só para evitar o trabalho tão pouco trabalhoso de escovar os dentes, ponto em risco toda a dentição (às vezes já permanente) e candidatando-se a longas horas de tortura no consultório odontológico, tudo por causa de uma lavagem simples de alguns minutos. Quem de fato atingiu um nível de adultidade elementar, entende ética, disciplina e responsabilidade como atitudes que lhe constituem obrigações indiscutíveis para consigo mesmo, em prol do próprio bem estar e felicidade.

É quase patético alguém usar o cinto de segurança só porque um guarda de trânsito pode multar pelo seu não-uso, ou não falar ao celular no volante, pelo mesmo motivo. Quem possui um mínimo de lucidez sabe que tais expedientes de determinação legal foram estabelecidos justamente por seu inequívoco valor de proteção para os indivíduos e sua própria segurança e incolumidade física. O uso do cinto de segurança, por exemplo, reduz em 70% a possibilidade de um acidente seguido de morte, tanto quanto o uso concomitante de celular à condução de veículos automotores restringe para ¼ os reflexos naturais do ser humano nessa função. Assim, alguém pensa se “safar” da “obrigação”, “burlando” a vigilância policial, para apenas conseguir expor a própria vida à morte prematura ou a lesões físicas, nela e nos outros, com seqüelas quiçá horrendas e irreversíveis para toda a vida, da mesma forma que uma criança e um adolescente insubmissos julgam-se “enganando os pais”, deixando de estudar, quando eles próprios são os prejudicados.

Você não precisa “obedecer” a nenhuma regra, nem se sentir “proibido” a nada. Mas fazer uso, com vigor, de seu discernimento e de sua inteligência, para perceber o que convém ou não ao seu próprio bem e de seu próximo, incluindo, principalmente, nessa categoria, seus entes mais queridos. Preste atenção, principalmente, para o que foi estabelecido como norma social. Há preconceitos absurdos, costumes castrantes e muita dose de tirania coletiva que tenta exercer ingerência imprópria na vida dos indivíduos. Entrementes, em meio a toda uma carga de tabus retrógrados e de império indevido do coletivo sobre as liberdades individuais, muita regra sábia e sugestões inteligentes são apresentadas para o vulgo, como meio de educar o povo a cuidar de si mesmo e ser feliz. Isso porque, em suma, o Estado existe para facilitar a vida em comum, e ninguém pode ser feliz sozinho. De modo que, a par de desmandos de mandatários do poder público – muitos deles, igualmente, desses espertos tolos que se julgam em vantagem, lançando-se ao abismo do próprio mal – muitas propostas acertadíssimas chegam-lhe aos ouvidos da alma, alvitrando-lhe caminhos de paz.

Sendo lúcido, nunca precisará obedecer a nada nem a ninguém, porque saberá intuir claramente a extensão dos próprios benefícios, por ser fiel… a si mesmo; por ser dedicado… à própria paz e felicidade; por ser honesto… com a própria consciência; por ser sempre coerente… com os próprios princípios. Sem isso, é simplesmente impossível estar em paz e ser feliz, antes ou depois da morte, na vida física ou na extra-física, em encarnações de agora ou posteriores.

Ser decente e digno, ético e honesto, confiável e respeitável, na era dos serviços, da ciência, das artes e da tecnologia que a civilização pós-industrial descortina para a humanidade terrícola, tratam-se de elementos essenciais para a sobrevivência, inclusive, nos mercados de trabalho. Destarte, da próxima vez que um tolo lhe disser que é tolo ser honesto, pergunte em que mundo vive ou viverá, porque no que se está constitui suicídio social e profissional (sem nem comentar as implicações espirituais) não ser correto e íntegro em todos os sentidos.

(Texto recebido em 2 de setembro de 2002.)





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