Espírito Gustavo Henrique

28 de agosto de 2002
 

Uma Carioca em Berlim.

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Gustavo Henrique.

Há muito tempo atrás, mas não tanto, uma jovem morava na grande metrópole da República, a capital do país, o Rio de Janeiro, e se sentia em meio à mais avançada civilização da época, só equiparável às sociedades nova-iorquina e parisiense. Liberdade, cultura, progresso econômico e social, costumes avançados para os tempos que iam – em suma, o ápice da evolução humana naqueles dias, supunha ela.

Gertrudes nasceu em família pobre, mas, dotada de inteligência fulgurante e dedicada, com afinco, aos estudos, logo terminou o curso normal com uma boa fluência em inglês e francês, além de natural brilho no uso do Português escrito e falado. Não lhe foi difícil conseguir emprego na embaixada francesa, e, em poucos dias, lá estava ela com recursos excepcionais de tradutora, com 25 anos incompletos de idade.

Um jovem diplomata de outra embaixada, contudo, abordou-a com idéias diferentes, numa solenidade oficial, cheio de charme e graça. A França era uma sociedade decadente, disse com paixão e ardência viril, tanto quanto a americana, formada basicamente de novos-ricos de mau gosto e educação limitada. O Brasil, então, estava ainda mais longe de servir de modelo para as nações, uma terra miscigenada, eivada de influências primitivas, de silvícolas e negróides vindos da África. Urgia uma limpeza racial, étnica e cultural sem precedentes, por todo o planeta, ou os benefícios da civilização poderiam periclitar e ser perdidos para sempre. A mais importante cruzada da História humana estava para se dar, com a depuração da espécie, e com a supremacia da cultura ariana sobre o globo. Gertrudes, sem saber se fascinada pela retórica do moço ou pelo seu garbo invulgar, deixou-se beijar ruborizada após mais de uma hora de conversa, em que se sentia hipnotizada pelo encanto do moço idealista…

Gertrudes se empolgou. Sem conhecer quase nada de alemão, foi parar, enlaçada pelos braços sedutores que a envolveram, em Berlim dos anos 30. Mulata, porém, apesar dos traços finos e da pele quase clara (no Brasil era normalmente vista como branca), não passou despercebida da Polícia Nazista e, quando a caçada étnica começou, ei-la, pobre iludida, nos campos de concentração reservados à escória humana, conforme as definições da política delirante do Füher.

* * * * *

1945. Berlim estava em ruínas. E o Império do Terceiro Reich, que dominaria a Terra em pouco tempo e se estenderia por mais de mil anos, estava convertido em um monte de cinzas e de vergonhas eternas. O Rio, todavia… continuava lindo. A Guerra tinha-se findado. Gertrudes, que ainda estaria na casa dos 30 e com uma fantástica carreira diplomática pela frente, havia perdido a vida física e, com ela, a oportunidade singular de estar na Terra, aprendendo no caldeirão candente de cultura que era o Rio de Janeiro do século XX, que viveria até seu término, com relativa saúde. Mas ela havia desprezado sua cultura pátria, para se encantar com falsas promessas de superioridade, pagando muito caro por sua ingenuidade.

Alguns diriam que ela estava destinada a morrer daquela forma bárbara, e somos levados a admitir que somente em parte essa assertiva é verdadeira. Somos destinados a atravessar determinado gênero de tentações, mas não a nos render a elas. Havia uma probabilidade de erro ou de acerto, na escolha de Gertrudes, e ela não soube aproveitar bem o ensejo de destino, tomando o caminho indesejável da encruzilhada, trocando as praias da Cidade Maravilhosa pelos fornos nazistas que a consumiram viva.

Em todo carma há o planejamento de eventual comutação de rumos, para uma opção mais feliz, se a pessoa se posiciona corretamente ante os desafios existenciais. Poucos são inarredavelmente arrastados para a tragédia. Quase sempre um gesto mais inteligente, uma atitude mais sensata salvariam o indivíduo da desgraça. Mas a incúria, freqüentemente, faz a festa do horror, montando a cena da tragédia, atrelando o indivíduo a uma seqüência macabra de acontecimentos.

Por diversas vezes, prezado leitor, vida afora, você será convocado a fazer escolhas difíceis, melindrosas, em meio a situações complexas, de difícil entendimento. Cuidado com as emoções e com as influências, principalmente as mais fortes, não importando de que ordem sejam. Procure sempre ser sensato. Pondere muito. Peça inspiração divina e ouça outras pessoas, que julgue maduras e sábias, e, por fim, tome a decisão que julgue a mais racional, ética e espiritual.

Há caminhos e descaminhos, mas quase nenhum deles fatal. Sempre é possível tomar a trilha melhor, quando se usa a inteligência adequadamente. A Divina Providência não quer castigá-lo, mas desenvolver-lhe o discernimento.

Esteja alerta. O canto da sereia da pós-modernidade canta com freqüência e intensidade ímpares, em diversos setores da vida humana, concomitantemente. Cabe-lhe discernir entre as oportunidades de renovação e as alternativas de dissipação. A responsabilidade, bem como as conseqüências pela opção, são e serão, sempre, inteiramente suas.

(Texto recebido em 27 de agosto de 2002.)




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