Espírito Temístocles

27 de agosto de 2002
 

Uma Virgem no Céu

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Temístocles.

Numa era em que a virgindade é tida mais como uma questão de falta de maturidade e de higiene que de moralidade, surge a ideia do retorno às origens, da Virgem por excelência, no sentido puro da palavra, conforme suas origens em culturas primitivas: de uma mulher auto-suficiente, que não precisava de um homem para sobreviver, e que, por isso inclusive, estava livre para ter vários parceiros sexuais vida afora.

Se Maria de Nazaré teve o seu hímen preservado ou não é um assunto de tão pouca relevância ou tão estúpido quanto as intérminas discussões eclesiásticas de concílios medievais, em função de concluir-se se a mulher teria ou não uma alma imortal. Ninguém será mais ou menos puro por usar ou não um certo órgão de seu corpo, mas como faz uso de todo ele e, principalmente, de sua alma, de seus propósitos de vida, de suas intenções ocultas, de suas atitudes e sua conduta em todos os sentidos. A preocupação excessiva com a película vaginal de Maria é, no mínimo, sacrílega, falaciosa e, principalmente, maquiavélica, já que capciosamente desvia a atenção do vulgo dos assuntos realmente importantes em assunto de espiritualidade e fé, para questões de comezinha importância e valores não só destituídos de significado mas, francamente, absurdos. Fazer ou não sexo não torna ninguém melhor ou pior, é óbvio, mas muita gente, ainda hoje, sente-se incomodada ao tão-somente pensar no assunto, supondo-se tratar de uma tentação diabólica. Sim, sem dúvida, forças do Mal criaram esse elaborado quão simples ardil, para envolver as almas e seduzi-las para temas que não condizem com a verdadeira moral. Portanto, é a tentação demoníaca que conduz pessoas a especularem sobre sexo em vez de conjecturarem sobre fazer o bem, e assim se perderem do caminho da verdade.

As idéias cristãs clássicas sobre pecado e santidade são de tal modo doentias que, de fato, enlouquecem e depravam quantos se lhe confiam às sugestões macabras. “Santos” da Era Medieval viviam ociosos e histéricos, aprisionados em conventos e monastérios isolados da civilização, lutando contra os próprios instintos e se confiando, na contra-mão do impossível, a taras compensatórias de suas repressões, enquanto o bem era negligenciado, no serviço de caridade ao próximo, no contato com a vida social que tanto abominavam.

Maria, assim, conforme esse folclore esdrúxulo, de tal modo fora impoluta – por impoluta entenda-se inacessível a qualquer pensamento ou ato relacionados a sexo – que teria sido carregada aos céus, com corpo, vísceras e tudo, para entregar-se para o Senhor Absoluto dos Céus – um homem, é claro: Javé, chamado de “Pai”, do qual “Eloim” (Nós Somos) teria dito, no princípio dos tempos: “Façamos o ‘homem’ à nossa imagem e semelhança”. Assim, essa Comunidade Divina Masculina, Pai, Filho, o Espírito Santo (certamente uma pomba macho) ou todo um Conselho de Pessoas Masculinas, levaram para si a única mulher da Terra que teria sido digna de estar não propriamente no Trono de Deus, mas logo abaixo dele, o que seria a honraria máxima concedida a um ser feminino em toda a criação. Ela, não nos esqueçamos, era “A Mãe”, a “Rainha do Céu”, coroada, é evidente, pelas figuras masculinas que detinham de fato o poder, como tanto foi representado em iconografias religiosas.

Uma paranoia delirante era instilada, em massa, na cabeça das mulheres, que eram compelidas a se dignificarem pela maternidade, por esse mito louco do impossível, já que sabiam que concomitantemente ao ato de se tornarem mães, estar-se-iam conspurcando pela inevitável perda da virgindade. Somente Maria – ó diva pura – teria sido mãe sem se sujar com o tal ato ignóbil…

Idéias e raciocínios como esses, que parecem absurdos à primeira vista, vivem ainda, todavia, pujantes, no inconsciente coletivo e individual de milhões. Mulheres sentem culpa de fazerem sexo ou buscarem o prazer em suas relações. Homens se sentem larápios asquerosos, a surripiarem a pureza da mãe de seus filhinhos inocentes, ao se entregarem a “poucas vergonhas” com a mãezinha de seus pimpolhos. Gente de todas as religiões, inclusive as consideradas mais profundas e avançadas, propõem a contenção de impulsos sexuais, em vez de conterem suas vaidades egoicas, no afã de se iluminarem espiritualmente. Pessoas nobres são vistas como assexuadas, claro que mães não são percebidas como seres dotados de desejos e, sim, sem dúvida, velhinhos que tenham respeito às suas cãs não poderiam nem sequer mais pensar nessas imundícies reservadas aos pecadilhos e traquinagens dos mais jovens. Imagine-se então, a Mãe do Cristo… Que horror! Quem pensaria algo de tão abominável envolvendo a imagem d’Ela???

E ninguém nota o quão ridículas são essas reflexões tacanhas e como o Céu riria gostosamente dessas infantilidades de mau gosto, não fossem tão funestas em suas graves conseqüências e implicações na vida psicológica e social de bilhões de criaturas, no correr de séculos sobre séculos de loucura e taras urdidas, geração após geração.

O pecado original, que no Gênesis fica claro tratar-se do conhecimento e não da tentação sexual, diz que o ser humano precisava cair naquela experiência indispensável ao seu progresso integral, a fim de sair da brutalidade e inconsciência do reino animal. Não por acaso, Javé colocou a árvore do “fruto proibido” no meio do “Jardim do Éden”, fazendo questão de alertar aos seus filhinhos inocentes que não comessem-no, muito embora pudessem gozar de todas as delícias do paraíso. Transparece inequívoco o que afirmamos se nos imaginamos como pais de duas criancinhas de sete anos, puras e inocentes como Adão e Eva eram, e lhe disséssemos saindo de casa: “Papai (ou mamãe) vai precisar sair. Vocês podem usufruir de todos os recursos de seu doce lar. A geladeira está abarrotada de guloseimas. O videocassete, com filminhos infantis ao lado, o videogame, com todos os jogos de que mais gostam, o computador, com toda sorte de programas de entretenimento infantil, também está à sua disposição. A televisão já está sintonizada em canal de programação infantil. Mas, por favor, não toquem nessa arma que deixo aqui, em cima da mesinha de centro da sala de estar. Ela já está com balas no tambor e… veja como papai ( ou mamãe) é bom (boa): Estou avisando que vocês podem se matar se a usarem…” Dizendo isso, qualquer um de nós seria imediata e dramaticamente considerado um misto de psicótico, maníaco e tarado perverso, e isso como pais humanos. E como é que Javé, o Senhor Supremo, teria feito algo dessa ordem? Porque, é lógico, não se tratava de algo que Ele realmente quisesse que evitássemos. Não era algo de essencialmente malévolo, que tivéssemos que evitar, mas muito pelo contrário, algo essencial ao nosso progresso, que teríamos que experimentar, eis o porquê de sua “estranha” provocação. Tratava-se da busca imprescindível de conhecimento a que todos devemos nos confiar, no processo de evolução infinita a que estamos destinados. Sem conhecimento não pode haver desenvolvimento. Por isso, Javé provocou as crianças espirituais Adão e Eva, representantes simbólicos da humanidade em seus primeiros estágios de evolução, assim como fazemos com crianças, pedindo que não façam o que queremos que façam, ou proibindo algo sobre o quê almejamos lhe instilar a curiosidade.

Maria era a Mulher que Conhecia, a Mulher a que Javé fazia referência no Gênesis, de modo profético, dirigindo-se à “serpente”, símbolo do mal (embora necessário, como diria Jesus: “É necessário que haja o escândalo, mais ai daquele por quem vem o escândalo.”). Disse Javé: “Porei inimizade entre ti e a Mulher”. Curioso ter dito Ele que o representante máximo do Bem, já que era o inimigo por excelência do representante do mal, a serpente, seria uma Mulher. Não disse Ele que enviaria um Homem, mas sim uma Mulher. Curioso notar, outrossim, que no último livro da Bíblia (numa contraposição perfeita ao Gênesis, que é o primeiro), fechando o círculo aberto com o Gênesis, uma Mulher esmaga a cabeça da Serpente, agora transformado em dragão, e não um homem.

Voltam, por fim, então, aos nossos ouvidos, o eco da voz de médiuns em todo o mundo, das centenas de aparições marianas em todo o globo (por que o Cristo não aparece?), na voz doce e pura de Maria: “Por fim, o meu Coração Imaculado triunfará…”

Seja um evento oriundo apenas do inconsciente coletivo, seja um fenômeno cultural de feminilização dos conceitos religiosos, seja uma legítima manifestação da Mãe da Humanidade (é claro que é um conjunto de tudo isso), o fato é que a Mãe Maior vem nos salvar, e não Jesus, que lhe foi precursor, com a Palavra da Verdade. Ela… trar-nos-á a Vida Eterna…

Venha, Maria Santíssima, Nossa Mãe Maior, nossa Virgem Impoluta, pura por todas as virtudes de total e incondicional amor por todas as criaturas… Venha nos salvar das trevas de nossa própria ignorância e insensibilidade!… Salve-nos do dragão de nosso egoísmo e da serpente de nossa incredulidade… Salve-nos, ó Mãe Santa, do monstro de nós mesmos!!!…

(Texto recebido em 26 de agosto de 2002.)




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