Espírito Temístocles

10 de janeiro de 2002
 

Demônios-deuses

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Temístocles.

Tragédia na natureza. Ecossistemas tragicamente poluídos. A temperatura da Terra aumenta, vertiginosamente. O equilíbrio homeostático das cadeias alimentares se rompe e as forças da desagregação campeiam, agigantando-se, ameaçadoras.

O sistema industrial de organização humana atual, baseado no princípio cientificista-materialista de que os recursos naturais são um bem disponível a ser consumido sem escrúpulos, conduziu a humanidade, juntamente a toda a biosfera, à beira do colapso.

Devemos sair, imediatamente, do modelo social de consumo desenfreado e esquecer o paradigma obsoleto de ver o planeta como uma pedra ciclópica flutuante no espaço sideral. Somos parte pensante de uma Terra viva e cabe-nos assumir a postura não de consumidores, mas de partícipes-servidores de um sistema. Ou mudamos para essa visão, com dramáticas rapidez e eficiência, ou nosso sistema civilizacional como um todo, periclitará, avançando, precípite, rumo ao abismo.

Você, que joga copinho de plástico na areia da praia, inconsciente da necessidade de ser eco-educado, apenas por achar que ninguém está vendo e que não fará diferença um lixinho a mais ou a menos… Já pensou colocar toda a Mãe-Gaia contra você? Ela é um Bicho enorme e não é muito generoso… É uma Mãe primitiva e boa, mas tempestuosa e vulcânica, literalmente falando, quando é ferida em seu coração. Não seria bom colocar contra você todo esse Monstro primal debaixo de seus pés, emitindo energias deletérias em sua direção. Onde você se esconderia dela? No alto dos edifícios? As estruturas de alvenaria e metal dos prédios comunicam as energias telúricas que partem de Mãe-Gaia… Então, a menos que se torne um habitante da estratosfera…. você não tem saída…

A hipótese Gaia tem sido considerada cientificamente, desde os anos 60 do século XX, por sumidades da Nasa, e cada vez mais adquire credibilidade na comunidade científica. Esse ser que se auto-regula e se auto-perpetua, todavia, não teria uma contraparte psíquica? Pois bem, amigo, saiba você que tem… Mas não num nível humano de consciência. É somente um bicho gigante e primitivo, uma fêmea ciclópica a nutrir e devorar as próprias crias, no correr de milênios. Nasceu e um dia morrerá… Mas tem uma consciência primeva, tanto quanto tem consciência a mãe selvática que alimenta as crias e as entrega à própria sorte, quando nota que não precisam mais de seus préstimos. Da mesma sorte, como um ogro mastodôntico, alimenta-se dos próprios rebentos, caprichosamente, sempre que suas funções de equilíbrio ecológico assim o exigem.

Ah… Mas se você não é só um mocinho que lança latinha de refrigerante na beira da estrada, e for um industrial milionário ou um empresário qualquer que não prima pelo uso consciente de materiais biodegradáveis, bem como por utilizar-se de recursos, tanto quanto possível, renováveis, não pense que por ser rústica, a Mãe-Gaia não o note… Ela, como as fêmeas sensitivas de antigas tribos, é cheia de mistérios ocultos, de poderes místicos divinatórios, como uma feiticeira cósmica, a espreitar a intimidade de todos que povoam sua pele, que chamamos de crosta. Ela sabe… intuitivamente, e ela odeia… perigosamente… aqueles que lhe fazem mal… Ah… amigo, Deus tenha pena de você… Ela pode azucrinar-lhe a vida, a saúde, mas também a saúde e a vida daqueles que ama e que com quem convive… Seria bom que, quanto antes, mudasse seu estilo de vida… seu sistema de produção, sua filosofia fabril… antes que seja tarde demais…

Mãe-Gaia é nossa grande mãe imanente, em contraposição complementar com a Deusa-Mãe, a Mãe-Transcendente que a todos nos gerou. Assim, primitivo e sublime, telúrico e celeste se encontram na figura híbrida e contraditória que somos, meio primais, meio angelicais, na busca interminável da perfeição. Deus, assim, em Suas expressões femininas primais e excelsas, convida-nos ao equilíbrio na relação com as Forças da Vida, a fim de que aprendamos a viver em rede – como só é possível a vida existir, nesse universo interconectado do microcóspico ao macrocósmico – e deixemos de ser esse demônio iracundo e perverso, egoísta e mesquinho, que só pensa em si, em gozar e consumir, como se todo o cosmo existisse só para a si, imitando a mentalidade da criancinha de colo, que ignora exista algo além do peito que a amamenta.

Tomara que nos lembremos logo de ser algo diferente que o bebê satânico que chamamos de homem terrícola, para que, quanto antes, possamos ostentar toda a dignidade que nos está reservada na condição humana: quase-anjos, semideuses, capazes de tudo ou quase tudo, em progresso infinito, rumo à perfeição…

(Texto recebido em 9 de janeiro de 2002.)




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