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18 de dezembro de 2000
 

Tríade Divina para a felicidade

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

Meu querido: o desafio não está em ser amistoso e simpático, mas justamente em não sê-lo. De tal modo é estranho que não se seja, que é de pasmar como a mente humana tem poderes prodigiosos de escolha, a ponto de conseguir se determinar a agir contrariamente a forças poderosíssimas: a da tendência natural em se ser gregário e afetuoso, espalhando a linfa do amor com a mesma naturalidade com que nos dedicamos ao exercício de uma função social ou uma profissão.

Haverá momentos, sem dúvida, em que será extremamente difícil manter a compostura. Todavia, afora tais situações de exceção, convém que haja a preocupação em se criar um padrão de excelência na gentileza, na cortesia, na bondade.

Estudemos o significado desses vocábulos, para que tenhamos uma ideia de quão importantes são os conceitos que lhes jazem embutidos, assim como as atitudes que propõem. A palavra “gentileza” vem de “gente”, ou seja: uma característica indissociável da condição humana, o que nos leva a inferir que quem não a apresenta, num nível mínimo que seja, nem sequer pode ser considerado(a) plenamente integrante da espécie humana. “Cortesia” vem de “corte”, dos hábitos e costumes necessários a se viver em ambientes refinados, num intuito de conter a barbárie e todos os impulsos primitivos, animalescos, que ainda trazemos, no bojo da alma, de nosso longo passado nos reinos inferiores da natureza. Por fim, “bondade” vem de “bom”, o que implica dizer que quem não é bondoso é mau. Muito forte essa dedução simples, a ponto de não lhe darmos a devida importância, a fim de não sermos impactados por suas fortes implicações. Porque, de sã consciência, ninguém se identifica com o mal. Até mesmo nos redutos do crime, miríades de justificativas e racionalizações são criadas por aqueles que os frequentam, a fim de enxergarem inocência e coerência em suas atitudes. Por mais que alguém se diga um bad boy, por dentro se sente amiúde um bom garoto, acertando, dentro de sua visão, ao rejeitar a lei e o status quo, por julgá-los injustos. Quando se diz, portanto: Fulano é um cara bom, está-se quase fazendo uma afirmação pleonástica, já que todo ser humano é ou deveria ser bom, ao menos nessa acepção filosófica mais profunda.

Ser gente, ser civilizado e não ser mau, a partir desses raciocínios simples que expendemos com o caro amigo, implica, necessariamente, ser gentil, cortês e bondoso. E como sei que o querido amigo não se tem à conta de um troglodita semissimiesco ou um animal selvagem solto na vida urbana, estou certa de que fará um esforço por desenvolver as virtudes que são imprescindíveis à plenitude da condição humana: gentileza, cortesia e bondade.

Adulcique suas palavras; suavize seus movimentos; urbanize sua conduta; seja generoso, justo e cordato; afável, solidário e equânime. Diga às pessoas com quem convive palavras de estímulo e de conforto. Trate-as com respeito e consideração, para que se sintam amadas e respeitadas. Todos precisam de ter seu ego alimentado, para que se sintam dignos, para que se sintam gente, e, assim, serem também gentis. Ninguém pode transcender o ego, com um ego subdesenvolvido. Estruturar a auto-estima é condição sine qua non para se desdobrar a genuína espiritualidade.

Elogie a inteligência do técnico que conserta seu aparelho eletroeletrônico. Agradeça, com palavras de incentivo e um largo sorriso, às mãos hábeis que lhe preparam as refeições. Trate a atendente atrás do balcão, como se ela fosse a cliente e não o contrário. Seja educado com todos, mas tenha, em particular, o máximo cuidado com todos que estejam em condição socialmente inferior à sua. Já estão suficientemente humilhados, pela condição em que estão, para ainda serem tratados como máquinas ou alimárias para serviço subalterno. E, depois deles – aqueles que lhe fazem o favor de servi-lo, porque poderiam, caso realmente quisessem, procurar outro emprego – tenha especial atenção com os entes queridos. É de se pasmar como as pessoas, na Terra de hoje, costumam tratar com desleixo e mesmo com desprezo, justamente as pessoas que mais amam no mundo. Não é de estranhar que o índice de divórcio tenha aumentado em toda parte, bem como o percentual esmagador de relações problemáticas entre pais e filhos. Com facilidade, tende-se a menosprezar a importância, o esforço e o devotamento dessas pessoas, tolerando nossos defeitos, convivendo conosco, apesar de terem outras alternativas de vida, dedicando suas vidas a estarem conosco, partilhando suas experiências e enriquecendo-nos com suas lições.

Já pensou em tratar a esposa como aquela pessoa comum que você trataria com a máxima finesse, se fosse a ela apresentado em solenidade social? Pois pense que, além de ela ser essa pessoa que mereceria sua gentileza, é ainda – que graça dos Céus!… – aquela alma abnegada que aceitou ladear-lhe os passos vida afora.

Já cogitou que seu filho é um espírito que reencarnou no seu lar, confiando (além da confiança dos seus mentores e dos guias espirituais dele) em sua capacidade de se dar e de conduzi-lo ao melhor caminho? Se você se sente lisonjeado quando recebe uma delegação de trabalho mais ousada, grato e honrado por ter sido tão valorizado por quem lhe confiou a tarefa, por que não se sente estupidamente grato, honrado e feliz por esse espírito e seu anjo guardião terem-no achado apto para o mais sagrado entre todos os misteres do mundo, que é auxiliar uma alma a se reformar, por meio do eclipse psíquico da infância?

Assim, a gentileza, a cortesia e a bondade merecem particular cuidado e exercício justamente no reduto do lar. Costuma-se dizer que em casa se fica ou se deve ficar à vontade. E a “besta interior” é solta a devorar e cuspir fogo, exatamente com os “anjos” da vida do “dragão” que amiúde, fora do ninho doméstico, assume ares de santo… até que, em situações extremas, lamentavelmente não incomuns, a relação se rompa, por completa exaustão de forças morais do(s) sacrificado(s) coração(ões) mais próximo(s). Inúmeros casamentos felizes entram em debáclè; e relacionamentos que seriam seráficos, entre pais e filhos em total bancarrota, exatamente pela falta de fino trato dentro de casa, ou melhor dizendo: de um mínimo de dignidade, respeito e consideração entre os componentes de uma mesma família. E a responsabilidade por isso é sempre do casal, dos mais velhos. Os filhos, quase fatalmente, reproduzem as neuroses dos progenitores em suas interações familiares.

Agradeça a seu filho por ser seu filho e diga-lhe como é feliz pela oportunidade de ser pai ou mãe. Costuma-se imaginar que o grande beneficiado na relação pai-filho é o rebento, que tudo receberia gratuitamente. Nenhuma experiência, entretanto, é mais engrandecedora para o espírito, que o exercício do amor incondicional que a paternidade e a maternidade (em particular) propiciam. Nós, pais, portanto, somos favorecidos pelo ensejo de amar, de nos divinizar, de aprendermos com os maiores mestres em angelitude que jamais encontraremos em todo nosso histórico evolutivo: aqueles que reencarnam como nossos filhos. É por isso que é incompleta a existência que não contém o exercício da paternidade-maternidade, ainda que não biológica.

Por outro lado, agradeça a seu cônjuge, por sê-lo. Entre três bilhões de outros homens ou mulheres do planeta, foi a você que ele ou ela escolheu para partilhar a intimidade. Não crie racionalizações estúpidas sobre a outra pessoa ter ou não tido outras opções. Sempre há, mesmo que não se queira admitir ou não se o diga, por gentileza ou por mera expressão de bondade (as benditas palavrinhas de novo), para não magoar seus sentimentos. A pessoa que está do seu lado está por amá-lo, considerá-lo, confiar em você e respeitá-lo mais talvez que qualquer outra pessoa na Terra, porque ela conhece seus defeitos como ninguém, e, apesar disso, continua ao seu lado, dividindo a vida com você. Então, você poderá me dizer: Não, você está errada: minha mãe me ama mais que minha mulher. E, embora tenha o amor de mãe como sagrado, e não aqui fazendo referência à maternidade mas à pessoa de sua mãe, quem lhe garante que ela toleraria aturá-lo na intimidade, caso não fosse sua mãe, assim como faz sua consorte? Ou você me diria: Ah, não, meu amigo Sicrano de Tal, esse sim, é o ser que mais me considera e me aceita como sou. E eu me permito a liberdade de lhe redarguir: e quem lhe disse que seu amigo aguentaria coexistir com você, estivesse em sexo oposto e do seu lado, sem o conforto da distância e do pouco envolvimento emocional de uma relação amigal? Aliás, quem lhe diz que você próprio teria a mesma opinião a respeito dele, caso fosse possível passar por essa experiência hipotética, com todos os complexos e pesados desafios psicológicos da luta de egos, de posse e de desejo de sexo que um relacionamento afetivo-sexual envolve?

Na conveniência da distância, tudo é mais fácil. Experimente amar de perto: o verdadeiro amor. Sobretudo, em meio a essa mudança de atitudes, não esqueça que seu cônjuge como seus filhos, pelas mesmas razões que você, podem estar menoscabando-lhe o devotamento e o amor. Não se entristeça por isso, nem fique magoado, muito menos com impulsos de revide. Não fazem isso intencionalmente, como, até agora, você também. É uma questão de percepção, de ignorância e, com cuidado, com maciez psicológica, vá, à medida que educa seu próprio comportamento e visão interior a respeito deles, também orientando-os, para que, de sua parte, possam lhe tratar, com o tempo, de forma mais agradável a seu coração, ainda que não deva exagerar nas expectativas de mudança que, em tese e a priori, poderíamos dizer: são sempre frustrantes.

Se você soubesse como é bom ser bom; como lhe acrescenta humanidade, gente-leza, ser gentil; como lhe acentua o grau de civilidade, sofisticação, de complexidade psíquica, ser corte-z; como ser bom lhe expande a bondade, a capacidade de amar e, por conseguinte de ser feliz e estar em paz, dedicar-se-ia, com afinco invulgar, a desenvolver e consolidar, em si, essa tríade divina de felicidade. Se de fato tivesse consciência da extensão dos benefícios pessoais, a começar pela enorme satisfação de ser um disseminador da paz, do bem, do amor, da alegria, não tergiversaria à necessidade, inclusive, de envidar alguns sacrifícios nesse sentido, já que, realmente, precisar-se-á fazer um recondicionamento mental, que demanda tempo, energia, esforço e paciência para com as sucessivas recaídas que o processo de aprendizagem e mudança implica. Todavia, isso digo: ainda que fosse preciso fazer algum sacrifício verdadeiro, porque, em verdade, ao se corrigir a perspectiva no enfoque desse tema, como dissemos no início de nossa reflexão: percebe-se como é difícil ser mau, rude e primitivo, já que tais posicionamentos contrariam a natureza humana e trazem infelicidade, conflitos e desgastes de toda ordem.

Seja plenamente ser humano, prezado amigo. Seja, tanto quanto possível, sempre que possível, gentil, cortês e bom.

(Texto recebido em 14 de dezembro de 2000.)










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